quinta-feira, 24 de abril de 2008

Deus te livre, Poeta...


Deus te livre, poeta,
de verter no cálice do teu irmão
a mais pequena gota de amargura,
Deus te livre, poeta,
de interceptar sequer com a tua mão
a luz que o sol oferece a uma criatura.
Deus te livre, poeta,
de escrever uma estrofe que entristece;
de turvar com o teu cenho
e a tua lógica triste
a lógica divina de um sonho;
de obstruir a senda, a vereda
que percorra a mais humilde planta;
de quebrar a pobre folha que roda;
de entorpecer, nem com o mais suave
dos pesos, o ímpeto de uma ave
ou de um belo ideal que se levanta.
Tem, para todo o júbilo, o santo
sorriso acolhedor que o aprova:
por uma nota nova
em toda a voz que canta;
e tira, pelo menos,um pequeno espinho a cada prova
que torture os maus e os bons.

Amado Nervo, Março de 1916

2 comentários:

Anduriña disse...

Uff, este es uno de mis poetas favoritos. Precioso poema, lleno de sensibilidad, como todo lo que escribía Amado Nervo. Gracias por traerlo a estas páginas. Obrigado!!

Phtah disse...

Ainda bem que pude partilhar algo que toque a outros. Obrigada pelo comentário. Quem me dera chegar aos pés de tamanha inspiração como é o caso de Amado Nervo. Ainda assim faço os possíveis neste blog, que espero que o venha ler de vez em quando...

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